QUEM faz os nossos SAPATOS?

A transparência no fabrico das nossas peças é algo que defendemos na NAE. Desde a origem dos materiais, passando pelas pessoas que os processaram até chegarem à fábrica, até como são manufaturados. Todos os passos são importantes, assim como todas as vidas que neles participam.

No universo da Fast-Fashion o preço é pago por trabalhadores que desconhecem direitos humanos, por crianças sem infância, e por terras, outrora cheias de vida, destruídas em prol de lucros cada mais maiores, e preços de venda baixíssimos.

Para uns terem a imensidão, outros são privados de quase tudo. Esse sistema não só é tortuoso para pessoas e animais, como para o planeta que nos acolhe. É imperativo quebrar este ciclo.

Como?

Aderindo à Slow Fashion, cujos preços podem não parecer tão atrativos para o consumidor, mas cuja qualidade é muito superior. A ideia é que o produto vendido dure o máximo de tempo possível, e seja fabricado de forma ética e amiga do ambiente.

São esses os ideais que nos movem. E por isso, hoje vamos levar-vos a visitar uma das fábricas com que trabalhamos há mais tempo, a Trofal. Uma das primeiras a aceitar o desafio de trabalhar de forma mais sustentável e com materiais vegan, antes de ser moda.

Trofal – a empresa familiar que sobreviveu à crise, seguindo modelos de produção sustentáveis.

O Sr. Luís Couto abre as portas da sua fábrica, fundada pelo seu bisavô em 1903.

Nessa época os sapatos eram feitos à mão, e o foco eram as típicas botas alentejanas, fortes e resistentes. Juntamente com o seu pai, e com apenas 18 anos, transformou o pequeno negócio numa empresa. Por infortúnio da vida, o seu pai vem a falecer pouco tempo depois.

O Sr. Luís ficou assim, encarregue de toda empresa e decidiu que iria sempre de encontro às soluções mais atuais. Lutou sempre por trabalhar com materiais naturais e ecológicos, apesar de não ser uma preocupação da época.

L.C: “Sempre trabalhámos com nichos de mercado, os artigos mais técnicos, mais ecológicos possível, mais amigos do ambiente (…) hoje fala-se de economia circular, e eu sem saber o que era isso já o praticava.”

Foi a primeira empresa portuguesa, dentro da área, a obter o certificado ISO 9001, e a 3a da Europa. O que demonstra a vontade de se destacar pela excelência e boas práticas.
A qualidade e o rigor da produção são valores fundamentais na Trofal. É por isso mesmo que a técnica utilizada é Goodyear Welted, o que antigamente se chamava palmilhar, e que significa que tudo é cosido ao pormenor por dentro e por fora, com isolamento de cortiça e sem colas agressivas. O processo mais amigo do ambiente.

L.C – “A sola é cheia com cortiça de 4mm, em placa, que por sua vez é cosida a uma sola de borracha de pneus reciclados. (…) Em qualquer país Europeu vão pedir calçado Goodyear Welted, que é o processo antigo que se fazia à mão, que depois começou a ser só feito para botas militares, que precisavam de muita resistência, conforto, e de absorver o suor. Hoje em dia é calçado corrente. E agora conseguimos adicionar a parte sustentável e ecológica.”

Apesar de ser mais dispendioso, e de poucas pessoas procurarem este tipo de fabrico, o sr. Luís insistiu e persistiu, e hoje é louvado por ter escolhido o caminho da Slow Fashion.

É importante entender o esforço económico e emocional que fábricas como a Trofal têm de fazer para conseguirem competir com a Fast Fashion. O apoio a negócios como este é fundamental para um futuro próspero. Esse apoio deve estar nas agendas governamentais, mas também se deve refletir na forma como fazemos compras.

Fast Fashion vs. Slow Fashion

O Sr. Luís utilizou o exemplo de uma fábrica que siga o Fast-Fashion para que conseguíssemos perceber a disparidade entre os dois. Uma fábrica Fast – Fashion, ou seja de produção em massa, produz 10 vezes mais rápido. Todas as partes do sapato vêm feitas e é só colar. Escusado será mencionar que as colas utilizadas são as mais rápidas de secar e as mais baratas, logo mais tóxicas. Os materiais usados são maioritariamente derivados dos plásticos mais tóxicos como o PVC. O resultado são sapatos de preço reduzido, em que a qualidade é muito inferior e o impacto ambiental muito superior.

Mas as diferenças não acabam no final do processo de produção. O Sr. Luís vê as pessoas que trabalham para si como família. Conta-nos que tem pessoas a trabalhar na sua fábrica desde o início, há 40 anos atrás. Descreve-nos com carinho, as reuniões constantes que tem com os seus empregados, para que estes não só estejam a par de tudo o que se passa, mas também para que lhe possam dar o melhor feedback possível.

Tal só é possível em negócios de pequena e média escala, com valores humanos e altruístas.

Dificuldades no sector

No entanto, a falta de pessoal qualificado para este tipo de trabalho de fábrica é algo que o preocupa. “Os jovens não querem sujar as mãos.” Foi algo que referiu várias vezes, e um problema no futuro da fábrica. A razão pensa estar no facto de que os cursos técnicos para este tipo de trabalho terem sido encerrados há alguns anos. É urgente que a sociedade dê o devido valor ao trabalho de fábrica, estamos certamente a perder imenso talento ao continuarmos a julgar um trabalho pela aparência do seu escritório.

Para além disso na Trofal a inovação é algo que foi sempre procurado. Não é de todo uma fábrica estagnada e aborrecida! Quando ainda não havia materiais vegan disponíveis, o sr. Luís chegou a ir a feiras a Hong Kong para conseguir encontrar microfibras. Imaginem só a aventura que foi procurar materiais raros, dos quais quase ninguém ainda tinha ouvido falar, e sem a ajuda da internet como a conhecemos hoje.

Atualmente isso já não acontece, o mercado em Portugal e na União Europeia está irreconhecível. É possível encontrar todos os materiais vegan que quisermos sem sair do conforto do nosso solo lusitano.

Sobre o mercado Português o sr. Luís defende também a importância de se focar em produzir com qualidade e aceitar fazer pequenas séries. Deixando assim as grandes quantidades para países como a China e Índia, com os quais nos é impossível competir.

Há 11 anos atrás, o veganismo não estava na moda, e o calçado vegan era quase impossível de encontrar. Trabalhar materiais vegan, que acabavam de aparecer no mercado, era algo que poucos se atreviam a tentar.

“A primeira bota da NAE (feita na Trofal) foi baseada num best seller da nossa empresa. Vendemos umas dezenas de milhares desse par para França, inicialmente. (…)
Foi criado o desafio de fazer a mesma bota em vegan. Conseguimos fazê-lo em Microfibra, com uma sola de borracha onde tem alguns componentes reciclados.”

Não podíamos deixar de perguntar ao Sr. Luís, qual foi o seu material preferido de trabalhar:

“Há 20 anos que trabalhamos com produtos vegan, e a evolução é enorme. Hoje em dia é mais fácil trabalhar com estes produtos. Foi preciso muita investigação, e feedback da nossa parte, da indústria do calçado, para os aperfeiçoar. (…) O objetivo é dar conforto e durabilidade, num produto ecológico.”

Trabalhar com a NAE

A parceria com a NAE já dura desde 2008, e é com orgulho que celebramos 11 anos de aventuras, riscos e coriscos, pela moda ética e sustentável.

O Sr. Luís termina a conversa com algumas palavras que evocam, com uma certa nostalgia, o início da NAE, num tempo em que o universo vegan estava longe do mundo da moda.

“Para mim foi um prazer muito grande, conhecer o Alex e a Paula. (…) vi que tinham bem definido o caminho que queriam, e que queriam ir devagar. Penso que houve alguma empatia, e fizemos os primeiros ensaios, as primeiras amostras, e fomos sempre colaborando. E fomos trabalhando de forma progressiva. Houve uma abertura total de ambas as partes, porque só assim é que se consegue que um projeto vá em frente.”

É com gratidão que trabalhamos com o Sr. Luís Couto, e com a sua filha sra. Filipa Couto. Empresas familiares como esta são difíceis de encontrar. O carinho com que nos recebem, e a força com que aceitaram e continuam a aceitar os nossos desafios, é absolutamente estonteante.

Esperemos que juntos, continuemos a tornar o mundo um sítio melhor, com menos emissões de gases de estufa, menos tortura animal, menos exploração de seres humanos, muito mais upcycling e muito mais amor!

Só queremos emitir boas energias, na forma de sapatos o mais IN possível!

Veja em baixo o vídeo da nossa visita à Trofal e tenham um dia incrível,

NAE

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